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Isso mesmo.
O Melômano cumpriu sua missão.
Doravante este que vos escreve terá apenas um único blog: Página de Cultura. Lá os assuntos referentes à música aparecerâo em meio a outros. Este blog fica aqui mais um tempo, enquanto transfiro os arquivos e, quiçá, os leitores para o outro blog.
Depois será deletado.
Porque faço isso? A explicação está aqui, tim-tim por tim-tim.
P.S. (de 6/9/09) - agora o meu único blog é outro: Um drible nas certezas. Estão todos convidados a visitar.
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O Melômano - crítica musical na internet
Comentários de discos, concertos, obras musicais. Informações sobre compositores.
segunda-feira, 16 de março de 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
Sobre o aprendizado da execução musical
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"Não surpreende, portanto, que pareça ter sido escrito muito mais sobre performance musical de um ponto de vista histórico do que de qualquer outro. Os músicos que trabalham segundo a tradição "viva" não necessitam escrever - ou falar - sobre música; eles são os executores, não os faladores, e assim é preciso dizer que eles têm todo o direito de encarar a musicologia, a teoria ou qualquer outra espécie de intelecção sobre música com certo desprendimento. (Esse despreendimento pode situar-se em algum outro lugar, entre a curiosidade diletante moderada e a mais declarada zombaria.) Uma tradição musical não mantém sua "vida" ou continuidade por meio de livros e sabedoria livresca. Ela é transmitida em lições privadas, não tanto por palavras quanto pela linguagem corporal, e não tanto pelo preceito quanto pelo exemplo. Só excepcionalmente esse processo é divulgado numa arena semi-pública, usualmente numa forma não muito satisfatória, em classes onde curiosos e ouvintes se esforçam por captar alguma coisa da comunicação entre mestre e aluno. O esotérico sistema sinal-gesto-resmungo, pelo qual os profissionais se comunicam a respeito da interpretação nos ensaios, é ainda menos redutível a palavras ou textos. Portanto, não é que exista qualquer falta de pensamento acerca da peformance por parte dos músicos na tradição central. Na verdade, ele existe e é abundante mas não é a espécie de pensamento que seja facilmente articulado em palavras."
KERMAN, Joseph. Musicologia. São Paulo: Martins Fontes, 1987. p. 275-276.
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"Não surpreende, portanto, que pareça ter sido escrito muito mais sobre performance musical de um ponto de vista histórico do que de qualquer outro. Os músicos que trabalham segundo a tradição "viva" não necessitam escrever - ou falar - sobre música; eles são os executores, não os faladores, e assim é preciso dizer que eles têm todo o direito de encarar a musicologia, a teoria ou qualquer outra espécie de intelecção sobre música com certo desprendimento. (Esse despreendimento pode situar-se em algum outro lugar, entre a curiosidade diletante moderada e a mais declarada zombaria.) Uma tradição musical não mantém sua "vida" ou continuidade por meio de livros e sabedoria livresca. Ela é transmitida em lições privadas, não tanto por palavras quanto pela linguagem corporal, e não tanto pelo preceito quanto pelo exemplo. Só excepcionalmente esse processo é divulgado numa arena semi-pública, usualmente numa forma não muito satisfatória, em classes onde curiosos e ouvintes se esforçam por captar alguma coisa da comunicação entre mestre e aluno. O esotérico sistema sinal-gesto-resmungo, pelo qual os profissionais se comunicam a respeito da interpretação nos ensaios, é ainda menos redutível a palavras ou textos. Portanto, não é que exista qualquer falta de pensamento acerca da peformance por parte dos músicos na tradição central. Na verdade, ele existe e é abundante mas não é a espécie de pensamento que seja facilmente articulado em palavras."
KERMAN, Joseph. Musicologia. São Paulo: Martins Fontes, 1987. p. 275-276.
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Prateleiras:
educação musical,
Musicologia,
tocar um instrumento
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Quinta Essentia na Oficina de Música
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Sábado na hora do almoço fui lá conferir o concerto do quarteto de flautas Quinta Essentia. E estava certo o palpite que dei aqui - realmente o concerto foi muito interessante.
Antes de falar do grupo, é preciso falar um pouco desse instrumento. A flauta doce é, provavelmente, mais conhecida no Brasil como um instrumento usado como opção de iniciação musical. É muito comum algum pai querer colocar o filho numa escola de música para estudar, por exemplo, piano, e receber de alguém a recomendação de que o filho comece pela flauta doce. Assim, o instrumento ficou um pouco estigmatizado. É visto como instrumento limitado, de poucos recursos e voltado para o uso em aulas para crianças, quase como um brinquedo.
Mas a flauta doce é muito mais do que isso. É sim uma ótima opção de iniciação musical mas, como aconteceu comigo, muitos que começam na flauta perdem o interesse e passam para outro instrumento supostamente com mais recursos - no meu caso o violão. Acontece que a flauta doce foi um dos principais instrumentos musicais da Idade Média a fins do século XVIII. Quando a cultura e a música passaram a submeter-se aos ditames da modernidade capitalista ocidental, os instrumentos que destinavam-se à riqueza da fruição privativa da música foram abandonados por aqueles mais adequados às grandes salas de concerto. O piano tornou-se o instrumento doméstico por excelência, capaz de solar ou acompanhar a voz e a dança - além de ser um belo móvel de sala (acaba sendo este o principal uso que lhe destinam as famílias que possuem um exemplar).
A recuperação da flauta doce no século XX foi, talvez, em parte devido às novas preocupações com a educação musical das crianças e em parte devido ao movimento pela recuperação da música antiga - aquela dos tempos pré-capitalistas na qual a flauta doce teve importância capital.
Mas acontece que a flauta doce não é apenas um instrumento, mas uma família deles. A soprano é a que mais conhecemos. Costuma ser a mais aguda em um conjunto, que pode incluir também a contralto, a tenor, a baixo, a grande-baixo e a sub-baixo (citando em ordem do agudo para o grave).
Conto tudo isso porque o quarteto Quinta Essentia, que executou o concerto de sábado, tem um compromisso profundo com toda esta história. É mais do que um grupo musical - é parte de um movimento em prol da flauta doce e da divulgação do potencial deste instrumento. Isto pode ser percebido na excelente página que o grupo tem na internet. Lá tem explicações sobre o grupo, os instrumentos, o repertório, além de muitos links úteis para quem quiser saber mais sobre flauta doce. E, é claro, divulgação do CD que o grupo gravou e para o qual o concerto também serviu como evento de lançamento.
E o movimento em prol da flauta doce inclui basicamente de dois tipos de iniciativa em relação ao repertório: primeiro, descobrir, recuperar ou transcrever música antiga; segundo, incentivar a produção contemporânea pois é isso que faz o instrumento vivo.
Neste sentido, o repertório do concerto teve relação com as duas iniciativas. Da música antiga o grupo executou uma Sonata composta por Boismortier em 1731, uma Chaconne de Purcell (século XVII) e canzoni italianas da virada dos séculos XVI e XVII (Tarquinio Merula e Adriano Banchieri). Não sei informar com precisão se essa primeira parte do repertório do concerto consistiu de peças "originais" ou "transcrições". Na verdade pouco importa, pois trata-se de uma época em que a música era feita para ser executada a gosto - podendo ser um órgão ou um grupo vocal ou um grupo instrumental. Era pouco comum a prática de discriminar o instrumento responsável pela execução e até mesmo a música que certamente era vocal (por possuir texto) era muitas vezes executada com qualquer instrumento capaz de substituir as vozes - a não ser para a música litúrgica que continuava sendo sempre vocal.
O grupo executou ainda duas peças que seguramente são transcrições: Mein junges Leben hat ein End é uma peça para órgão de Sweelinck (1562-1621), talvez o mais importante compositor holandês, ativo no exato momento das lutas de independência do país; Immutemur Habitu um moteto de semana santa para coro à cappela composto no Brasil por José Maurício Nunes Garcia. Ambas as peças soaram perfeitamente no conjunto de flautas, visto que a qualidade sonora das flautas permite emular com grande riqueza o órgão e o conjunto vocal. Afinal tratam-se de instrumentos que produzem som da mesma forma, através da vibração de uma coluna ar.
E finalmente o concerto teve o repertório contemporâneo. Um arranjo magistral do Um a zero de Pixinguinha, feito por Hélcio Müller. Uma peça jazzística de Paul Leenhouts (que não descobri se é original ou arranjo) e duas composições feitas especialmente para o grupo: Sonho Novo de Julio Bellodi e Descascando Uva de Cláudio Menandro. O bis foi um sensacional e surpreendente arranjo da trilha da Pantera Cor-de-Rosa.
O concerto todo foi uma maravilhosa sensação auditiva. A intimidade da Capela Santa Maria parece perfeita para a sonoridade do quarteto de flautas. O repertório escolhido demonstrou com maestria a riqueza de possibilidades sonoras deste tipo de conjunto. E nos faz lamentar o quanto a música do classicismo/romantismo nos fez perder em poesia sonora com a homogeneização de timbres patrocinada pelo sistema temperado e seus asseclas piano e família dos violinos.
O único comentário negativo que eu faria é para a peça de Bellodi. Me parece que o compositor está acostumado a trabalhar com outros tipos de formação instrumental e teve dificuldade em explorar as características da flauta. A rítmica derivada do samba soou pesada e ineficiente, bem como o tipo de harmonia normalmente usada para escrita em naipes de big-band. Ficou mais claro isso quando se ouviu na seqüência a peça de Cláudio Menandro, que parece ter todo o métier necessário para escrever para flauta. Menandro é gambista, com grande conhecimento de música antiga. E também cavaquinista e violonista com grande habilidade na tradição do choro. Foi nessa tradição, que tem muito a ver com as origens antigas da flauta, que Menandro buscou a escrita instrumental e harmônica que funcionou tão perfeitamente bem para o quarteto de flautas.
Para quem não viu o concerto, resta o consolo de comprar o CD. É ótimo, muito bem gravado, mas não chega nem perto da experiência de ver o grupo ao vivo. Afinal, um instrumento como a flauta, que tem na riqueza de possibilidades tímbricas sua principal qualidade, fica imensamente prejudicado quando ouvido através de alto-falantes.
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Sábado na hora do almoço fui lá conferir o concerto do quarteto de flautas Quinta Essentia. E estava certo o palpite que dei aqui - realmente o concerto foi muito interessante.
Antes de falar do grupo, é preciso falar um pouco desse instrumento. A flauta doce é, provavelmente, mais conhecida no Brasil como um instrumento usado como opção de iniciação musical. É muito comum algum pai querer colocar o filho numa escola de música para estudar, por exemplo, piano, e receber de alguém a recomendação de que o filho comece pela flauta doce. Assim, o instrumento ficou um pouco estigmatizado. É visto como instrumento limitado, de poucos recursos e voltado para o uso em aulas para crianças, quase como um brinquedo.
Mas a flauta doce é muito mais do que isso. É sim uma ótima opção de iniciação musical mas, como aconteceu comigo, muitos que começam na flauta perdem o interesse e passam para outro instrumento supostamente com mais recursos - no meu caso o violão. Acontece que a flauta doce foi um dos principais instrumentos musicais da Idade Média a fins do século XVIII. Quando a cultura e a música passaram a submeter-se aos ditames da modernidade capitalista ocidental, os instrumentos que destinavam-se à riqueza da fruição privativa da música foram abandonados por aqueles mais adequados às grandes salas de concerto. O piano tornou-se o instrumento doméstico por excelência, capaz de solar ou acompanhar a voz e a dança - além de ser um belo móvel de sala (acaba sendo este o principal uso que lhe destinam as famílias que possuem um exemplar).
A recuperação da flauta doce no século XX foi, talvez, em parte devido às novas preocupações com a educação musical das crianças e em parte devido ao movimento pela recuperação da música antiga - aquela dos tempos pré-capitalistas na qual a flauta doce teve importância capital.
Mas acontece que a flauta doce não é apenas um instrumento, mas uma família deles. A soprano é a que mais conhecemos. Costuma ser a mais aguda em um conjunto, que pode incluir também a contralto, a tenor, a baixo, a grande-baixo e a sub-baixo (citando em ordem do agudo para o grave).
Conto tudo isso porque o quarteto Quinta Essentia, que executou o concerto de sábado, tem um compromisso profundo com toda esta história. É mais do que um grupo musical - é parte de um movimento em prol da flauta doce e da divulgação do potencial deste instrumento. Isto pode ser percebido na excelente página que o grupo tem na internet. Lá tem explicações sobre o grupo, os instrumentos, o repertório, além de muitos links úteis para quem quiser saber mais sobre flauta doce. E, é claro, divulgação do CD que o grupo gravou e para o qual o concerto também serviu como evento de lançamento.
E o movimento em prol da flauta doce inclui basicamente de dois tipos de iniciativa em relação ao repertório: primeiro, descobrir, recuperar ou transcrever música antiga; segundo, incentivar a produção contemporânea pois é isso que faz o instrumento vivo.
Neste sentido, o repertório do concerto teve relação com as duas iniciativas. Da música antiga o grupo executou uma Sonata composta por Boismortier em 1731, uma Chaconne de Purcell (século XVII) e canzoni italianas da virada dos séculos XVI e XVII (Tarquinio Merula e Adriano Banchieri). Não sei informar com precisão se essa primeira parte do repertório do concerto consistiu de peças "originais" ou "transcrições". Na verdade pouco importa, pois trata-se de uma época em que a música era feita para ser executada a gosto - podendo ser um órgão ou um grupo vocal ou um grupo instrumental. Era pouco comum a prática de discriminar o instrumento responsável pela execução e até mesmo a música que certamente era vocal (por possuir texto) era muitas vezes executada com qualquer instrumento capaz de substituir as vozes - a não ser para a música litúrgica que continuava sendo sempre vocal.
O grupo executou ainda duas peças que seguramente são transcrições: Mein junges Leben hat ein End é uma peça para órgão de Sweelinck (1562-1621), talvez o mais importante compositor holandês, ativo no exato momento das lutas de independência do país; Immutemur Habitu um moteto de semana santa para coro à cappela composto no Brasil por José Maurício Nunes Garcia. Ambas as peças soaram perfeitamente no conjunto de flautas, visto que a qualidade sonora das flautas permite emular com grande riqueza o órgão e o conjunto vocal. Afinal tratam-se de instrumentos que produzem som da mesma forma, através da vibração de uma coluna ar.
E finalmente o concerto teve o repertório contemporâneo. Um arranjo magistral do Um a zero de Pixinguinha, feito por Hélcio Müller. Uma peça jazzística de Paul Leenhouts (que não descobri se é original ou arranjo) e duas composições feitas especialmente para o grupo: Sonho Novo de Julio Bellodi e Descascando Uva de Cláudio Menandro. O bis foi um sensacional e surpreendente arranjo da trilha da Pantera Cor-de-Rosa.
O concerto todo foi uma maravilhosa sensação auditiva. A intimidade da Capela Santa Maria parece perfeita para a sonoridade do quarteto de flautas. O repertório escolhido demonstrou com maestria a riqueza de possibilidades sonoras deste tipo de conjunto. E nos faz lamentar o quanto a música do classicismo/romantismo nos fez perder em poesia sonora com a homogeneização de timbres patrocinada pelo sistema temperado e seus asseclas piano e família dos violinos.
O único comentário negativo que eu faria é para a peça de Bellodi. Me parece que o compositor está acostumado a trabalhar com outros tipos de formação instrumental e teve dificuldade em explorar as características da flauta. A rítmica derivada do samba soou pesada e ineficiente, bem como o tipo de harmonia normalmente usada para escrita em naipes de big-band. Ficou mais claro isso quando se ouviu na seqüência a peça de Cláudio Menandro, que parece ter todo o métier necessário para escrever para flauta. Menandro é gambista, com grande conhecimento de música antiga. E também cavaquinista e violonista com grande habilidade na tradição do choro. Foi nessa tradição, que tem muito a ver com as origens antigas da flauta, que Menandro buscou a escrita instrumental e harmônica que funcionou tão perfeitamente bem para o quarteto de flautas.
Para quem não viu o concerto, resta o consolo de comprar o CD. É ótimo, muito bem gravado, mas não chega nem perto da experiência de ver o grupo ao vivo. Afinal, um instrumento como a flauta, que tem na riqueza de possibilidades tímbricas sua principal qualidade, fica imensamente prejudicado quando ouvido através de alto-falantes.
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Terra Sonora na Oficina de Música
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Bons apreciadores deliciam-se em experimentar sabores oriundos de diversas regiões do mundo. Assim é que temos hoje uma grande diversidade de restaurantes especializados em gastronomia japonesa, chinesa, italiana, indiana, coreana, espanhola, americana, libanesa. Não há nada mais chique. E quem não se presta a experiências gustativas merece a pecha de "enjoado".
Mas e os sons?
Traçando um paralelo com a gastronomia, onde há o glamour da "cozinha internacional", existe uma febre também da world music ou música étnica. Neste selo do mercado fonográfico incluem-se os grupos musicais não tão ligados à tradição européia - cujos sons se fundam numa cultura musical tradicional, de raízes não ocidentais.
Curitiba tem, há 15 anos, um grupo musical especialmente dedicado à pesquisa deste universo sonoro que escapa à tradição da modernidade européia. É o grupo Terra Sonora, que fez seu concerto ontem à noite como parte da programação da Oficina de Música de Curitiba.
Dirigido por Liane Guariente e Plínio Silva, o grupo se dedica à pesquisa de repertório musical de várias regiões do mundo. Aliás, dizer que pesquisam repertório é pouco. Pode dar a entender que a pesquisa se resume a colher composições musicais para execução. Não é apenas isso. A pesquisa envolve instrumentos musicais e técnicas de execução. E envolve as especificidades da pronúncia da língua e do tipo de emissão vocal característica do canto em cada região escolhida.
Assim, o grupo nos proporcionou ontem uma viagem musical muito peculiar. Polônia e Sri Lanka. Chile e Moldávia. Brasil e Macedônia. Posso estar equivocado em alguma coisa porque não consegui pegar o programa - fui com duas crianças ao concerto, cheguei em cima da hora, peguei fila na bilheteria (que não permitia compra de ingresso antecipada). Mas acho que tudo bem, porque eles mudaram bastante o programa, como já é tradição. O que importa é dizer que o concerto seguiu a lógica de executar sempre sequencias (será que é assim que se escreve agora?) de duas músicas de regiões distintas. O par inusitado permitiu observar semelhanças incríveis.
Aliás, o grande interesse que o trabalho do grupo desperta vem dessa possibilidade de conhecer o mundo. Não é um conhecer turístico, aquela coisa de viajar com pacote e guia, hospedar-se em resort e passear em shopping, além de comer fast food. É um conhecer mais profundo. As ligações íntimas e inusitadas entre os modalismos de muitas regiões do mundo. O pensamento, o sentimento e a cultura pré-capitalistas que unem todos os povos num extrato submerso de tradição oral - condenada ao desaparecimento pelo mercado.
Instrumentos modernos como flauta, violão e violino, conjugam-se à instrumentos esquecidos há séculos, como o cromorne. Instrumentos ocidentais misturam-se aos de outras procedências. Essas combinações nos mostram a possibilidade de convivência. Está um outro sentido para o termo "buscar novas harmonias". Tecnicamente, significa a pesquisa de acordes, bem como de combinações e relações entre eles. Num sentido mais amplo, mais etimológico, as harmonias envolvem combinações de timbres, de mundos sonoros, de jeitos de tocar e cantar - bem como de conceber música.
Bem, não adianta eu ficar falando muito aqui. Você tem que ouvir os discos do grupo ou assistir um concerto para entender melhor do que se trata.
O Plínio e a Liane são meus colegas de departamento na FAP. E lá fazem um trabalho fantástico com os alunos em grupos como o Baiaka e o Omundô. Aliás, a formação do Terra Sonora ontem foi diferente da que está no sítio do grupo. Inclui hoje alguns ex-alunos do Plínio e da Liane na FAP, como o Gustavo Proença, o Tiago Portela, a Carla Zago. Destaque para Daniel Farah, um cantor especialíssimo, capaz de absorver os ensino da Liane a ponto de conseguir reproduzir o canto bi-fônico da Moldávia. A própria Liane não o faz por ser algo possível apenas ao aparelho vocal masculino.
Outra coisa que está diferente no sítio do grupo é que já são 4 CD's gravados. Aliás, o Plínio contou no concerto que já há um quinto em projeto, como parte do Projeto Pixinguinha da FUNARTE, para o qual o grupo foi selecionado. O projeto incluirá o novo CD e uma turnê do grupo pelo estado do Paraná.
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Bons apreciadores deliciam-se em experimentar sabores oriundos de diversas regiões do mundo. Assim é que temos hoje uma grande diversidade de restaurantes especializados em gastronomia japonesa, chinesa, italiana, indiana, coreana, espanhola, americana, libanesa. Não há nada mais chique. E quem não se presta a experiências gustativas merece a pecha de "enjoado".
Mas e os sons?
Traçando um paralelo com a gastronomia, onde há o glamour da "cozinha internacional", existe uma febre também da world music ou música étnica. Neste selo do mercado fonográfico incluem-se os grupos musicais não tão ligados à tradição européia - cujos sons se fundam numa cultura musical tradicional, de raízes não ocidentais.
Curitiba tem, há 15 anos, um grupo musical especialmente dedicado à pesquisa deste universo sonoro que escapa à tradição da modernidade européia. É o grupo Terra Sonora, que fez seu concerto ontem à noite como parte da programação da Oficina de Música de Curitiba.
Dirigido por Liane Guariente e Plínio Silva, o grupo se dedica à pesquisa de repertório musical de várias regiões do mundo. Aliás, dizer que pesquisam repertório é pouco. Pode dar a entender que a pesquisa se resume a colher composições musicais para execução. Não é apenas isso. A pesquisa envolve instrumentos musicais e técnicas de execução. E envolve as especificidades da pronúncia da língua e do tipo de emissão vocal característica do canto em cada região escolhida.
Assim, o grupo nos proporcionou ontem uma viagem musical muito peculiar. Polônia e Sri Lanka. Chile e Moldávia. Brasil e Macedônia. Posso estar equivocado em alguma coisa porque não consegui pegar o programa - fui com duas crianças ao concerto, cheguei em cima da hora, peguei fila na bilheteria (que não permitia compra de ingresso antecipada). Mas acho que tudo bem, porque eles mudaram bastante o programa, como já é tradição. O que importa é dizer que o concerto seguiu a lógica de executar sempre sequencias (será que é assim que se escreve agora?) de duas músicas de regiões distintas. O par inusitado permitiu observar semelhanças incríveis.
Aliás, o grande interesse que o trabalho do grupo desperta vem dessa possibilidade de conhecer o mundo. Não é um conhecer turístico, aquela coisa de viajar com pacote e guia, hospedar-se em resort e passear em shopping, além de comer fast food. É um conhecer mais profundo. As ligações íntimas e inusitadas entre os modalismos de muitas regiões do mundo. O pensamento, o sentimento e a cultura pré-capitalistas que unem todos os povos num extrato submerso de tradição oral - condenada ao desaparecimento pelo mercado.
Instrumentos modernos como flauta, violão e violino, conjugam-se à instrumentos esquecidos há séculos, como o cromorne. Instrumentos ocidentais misturam-se aos de outras procedências. Essas combinações nos mostram a possibilidade de convivência. Está um outro sentido para o termo "buscar novas harmonias". Tecnicamente, significa a pesquisa de acordes, bem como de combinações e relações entre eles. Num sentido mais amplo, mais etimológico, as harmonias envolvem combinações de timbres, de mundos sonoros, de jeitos de tocar e cantar - bem como de conceber música.
Bem, não adianta eu ficar falando muito aqui. Você tem que ouvir os discos do grupo ou assistir um concerto para entender melhor do que se trata.
O Plínio e a Liane são meus colegas de departamento na FAP. E lá fazem um trabalho fantástico com os alunos em grupos como o Baiaka e o Omundô. Aliás, a formação do Terra Sonora ontem foi diferente da que está no sítio do grupo. Inclui hoje alguns ex-alunos do Plínio e da Liane na FAP, como o Gustavo Proença, o Tiago Portela, a Carla Zago. Destaque para Daniel Farah, um cantor especialíssimo, capaz de absorver os ensino da Liane a ponto de conseguir reproduzir o canto bi-fônico da Moldávia. A própria Liane não o faz por ser algo possível apenas ao aparelho vocal masculino.
Outra coisa que está diferente no sítio do grupo é que já são 4 CD's gravados. Aliás, o Plínio contou no concerto que já há um quinto em projeto, como parte do Projeto Pixinguinha da FUNARTE, para o qual o grupo foi selecionado. O projeto incluirá o novo CD e uma turnê do grupo pelo estado do Paraná.
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quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Sobre um pioneiro
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Na década de 1970 iniciou-se no Brasil um movimento de executantes de música antiga. Costuma-se denominar assim a música composta antes do século XIX, quando a construção dos instrumentos, suas técnicas de execução, a teoria musical, e o lugar social da música eram tão diferentes do mundo moderno que convém pensar em outra categoria de música.
Os primeiros executantes brasileiros eram flautistas, cravistas ou gambistas que estudavam na Europa e vinham tocando o repertório europeu do início do barroco, ou ainda mais antigo. Desfrutavam de uma consolidada na Europa havia várias décadas, com publicação de partituras e tratados, além da disponibilidade de vários especialistas para se fazer aulas ou cursos.
Mais recentemente surgiram alguns outros curiosos que pensaram em executar não apenas música antiga, mas música antiga feita no Brasil, ou melhor, na América Portuguesa. Entre os que nadaram contra a corrente tentando recuperar o que foi a sonoridade do nosso passado histórico, estava um jovem estudante da Escola de Música e Belas Artes do Paraná.
Lá pelos idos de 1996 ele resolveu começar um grupo musical com vários estudantes. Coro e orquestra. O mentor do grupo seria também o regente (e esse era seu primeiro trabalho como maestro, por volta dos 20 anos de idade). As partituras vinham do trabalho musicológico de um professor do curso - Harry Crowl, resultado do período em que trabalhou como pesquisador da Universidade Federal de Ouro Preto.
O nome o grupo era Americantiga. O nome do regente Ricardo Bernardes. Este blogueiro que vos escreve participou do coro e também executou baixo contínuo ao violão.
O grupo chegou a gravar um CD (do qual não participei). Fez vários concertos. Mas se acabou quando o regente mudou-se para São Paulo a fim de buscar maiores oportunidades profissionais.
Depois de longo tempo sem contato, descubro que meu colega Ricardo Bernardes já defendeu dissertação de mestrado em musicologia na USP, sobre uma obra de José Maurício Nunes Garcia. É agora doutorando em Austin (Texas), e o grupo Americantiga continua ativo.
Executou recentemente um concerto em Washington, a convite da embaixada brasileira e como parte das comemorações dos 200 anos da corte portuguesa no Rio de Janeiro.
Assisto aos vídeos do concerto, e percebo o quanto evoluiu o nosso maestro e seu grupo. Extremo profissionalismo. Instrumentos de época. Execução precisa e cuidadosa. Interpretação com autenticidade tanto no que toca ao período joanino como ao atual (um grande dilema para quem trabalha com música antiga).
A obra executada é de Marcos Portugal, preferido de D. João VI e que passou o fim de sua gloriosa carreira no Rio de Janeiro.
Vida longa ao Americantiga, que, aliás, tem um excelente canal no Youtube...
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Na década de 1970 iniciou-se no Brasil um movimento de executantes de música antiga. Costuma-se denominar assim a música composta antes do século XIX, quando a construção dos instrumentos, suas técnicas de execução, a teoria musical, e o lugar social da música eram tão diferentes do mundo moderno que convém pensar em outra categoria de música.
Os primeiros executantes brasileiros eram flautistas, cravistas ou gambistas que estudavam na Europa e vinham tocando o repertório europeu do início do barroco, ou ainda mais antigo. Desfrutavam de uma consolidada na Europa havia várias décadas, com publicação de partituras e tratados, além da disponibilidade de vários especialistas para se fazer aulas ou cursos.
Mais recentemente surgiram alguns outros curiosos que pensaram em executar não apenas música antiga, mas música antiga feita no Brasil, ou melhor, na América Portuguesa. Entre os que nadaram contra a corrente tentando recuperar o que foi a sonoridade do nosso passado histórico, estava um jovem estudante da Escola de Música e Belas Artes do Paraná.
Lá pelos idos de 1996 ele resolveu começar um grupo musical com vários estudantes. Coro e orquestra. O mentor do grupo seria também o regente (e esse era seu primeiro trabalho como maestro, por volta dos 20 anos de idade). As partituras vinham do trabalho musicológico de um professor do curso - Harry Crowl, resultado do período em que trabalhou como pesquisador da Universidade Federal de Ouro Preto.
O nome o grupo era Americantiga. O nome do regente Ricardo Bernardes. Este blogueiro que vos escreve participou do coro e também executou baixo contínuo ao violão.
O grupo chegou a gravar um CD (do qual não participei). Fez vários concertos. Mas se acabou quando o regente mudou-se para São Paulo a fim de buscar maiores oportunidades profissionais.
Depois de longo tempo sem contato, descubro que meu colega Ricardo Bernardes já defendeu dissertação de mestrado em musicologia na USP, sobre uma obra de José Maurício Nunes Garcia. É agora doutorando em Austin (Texas), e o grupo Americantiga continua ativo.
Executou recentemente um concerto em Washington, a convite da embaixada brasileira e como parte das comemorações dos 200 anos da corte portuguesa no Rio de Janeiro.
Assisto aos vídeos do concerto, e percebo o quanto evoluiu o nosso maestro e seu grupo. Extremo profissionalismo. Instrumentos de época. Execução precisa e cuidadosa. Interpretação com autenticidade tanto no que toca ao período joanino como ao atual (um grande dilema para quem trabalha com música antiga).
A obra executada é de Marcos Portugal, preferido de D. João VI e que passou o fim de sua gloriosa carreira no Rio de Janeiro.
Vida longa ao Americantiga, que, aliás, tem um excelente canal no Youtube...
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domingo, 31 de agosto de 2008
Ouvidos maricas
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Quanto à música tradicional, tudo indica que Ives pouco apreciava além da sua própria e de alguns outros norte-americanos não menos independentes com os quais só entraria em contato depois de praticamente deixar de compor, em 1918. Ele considerava Beethoven "um grande homem - mas que pena que não tivesse pelo menos um belo acorde independente de qualquer tonalidade". Para Ives, a música fora emasculada pela necessidade de agradar seu público; era preciso oferecer um alimento mais sólido aos ouvidos e ao espírito: ritmos complexos, texturas complicadas e acima de tudo acordes dissonantes. Sua reação às vaias durante a execução de uma obra de seu amigo Carl Ruggles é típica: "Seus maricas de uma figa", vociferou, "quando ouvirem música forte e máscula como esta, levantem-se e usem seus ouvidos como homens!"
GRIFFITHS, Paul. A música moderna. Uma história concisa e ilustrada de Debussy a Boulez. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 50-51.
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Quanto à música tradicional, tudo indica que Ives pouco apreciava além da sua própria e de alguns outros norte-americanos não menos independentes com os quais só entraria em contato depois de praticamente deixar de compor, em 1918. Ele considerava Beethoven "um grande homem - mas que pena que não tivesse pelo menos um belo acorde independente de qualquer tonalidade". Para Ives, a música fora emasculada pela necessidade de agradar seu público; era preciso oferecer um alimento mais sólido aos ouvidos e ao espírito: ritmos complexos, texturas complicadas e acima de tudo acordes dissonantes. Sua reação às vaias durante a execução de uma obra de seu amigo Carl Ruggles é típica: "Seus maricas de uma figa", vociferou, "quando ouvirem música forte e máscula como esta, levantem-se e usem seus ouvidos como homens!"
GRIFFITHS, Paul. A música moderna. Uma história concisa e ilustrada de Debussy a Boulez. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 50-51.
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Prateleiras:
Charles Ives,
vanguardas musicais
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Mignone e Nazareth
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Ernesto Nazareth é um nome fundamental da história da música brasileira. São algumas personalidades que conseguiram sintetizar os dilemas de ser compositor numa longínqua periferia européia: José Maurício Nunes Garcia, no período da corte portuguesa; Carlos Gomes no 2º império; Ernesto Nazareth na 1ª república.
Ernesto Nazareth foi a síntese contraditória do erudito e do popular, do nacional e do estrangeiro, de Chopin e do maxixe. Mediador entre mundos culturais distintos que se juntaram na formação da música mais criativa do mundo.
Muito disso está discutido neste fabuloso texto de José Miguel Wisnik:
Machado maxixe
O que talvez seja pouco sabido, é que Nazareth foi uma influência importantíssima para nomes como Radamés Gnattali, Villa-Lobos e Francisco Mignone. Villa-Lobos era orgulhoso demais para assumir influência de quem quer que fosse. Mas é sabido que tocou violoncelo na mesma orquestra de cinema em que Nazareth tocava piano.
Já Francisco Mignone assume essa influência abertamente. Não vê motivo do que se envergonhar. Aliás, suas famosas Valsas de esquina devem tanto a Nazareth quanto à prática de seresta pelas ruas de São Paulo durante a adolescência de Mignone (na década de 1910).
Segue um vídeo onde Mignone já idoso conta de seu encontro com Nazareth
Ernesto Nazareth é um nome fundamental da história da música brasileira. São algumas personalidades que conseguiram sintetizar os dilemas de ser compositor numa longínqua periferia européia: José Maurício Nunes Garcia, no período da corte portuguesa; Carlos Gomes no 2º império; Ernesto Nazareth na 1ª república.
Ernesto Nazareth foi a síntese contraditória do erudito e do popular, do nacional e do estrangeiro, de Chopin e do maxixe. Mediador entre mundos culturais distintos que se juntaram na formação da música mais criativa do mundo.
Muito disso está discutido neste fabuloso texto de José Miguel Wisnik:
Machado maxixe
O que talvez seja pouco sabido, é que Nazareth foi uma influência importantíssima para nomes como Radamés Gnattali, Villa-Lobos e Francisco Mignone. Villa-Lobos era orgulhoso demais para assumir influência de quem quer que fosse. Mas é sabido que tocou violoncelo na mesma orquestra de cinema em que Nazareth tocava piano.
Já Francisco Mignone assume essa influência abertamente. Não vê motivo do que se envergonhar. Aliás, suas famosas Valsas de esquina devem tanto a Nazareth quanto à prática de seresta pelas ruas de São Paulo durante a adolescência de Mignone (na década de 1910).
Segue um vídeo onde Mignone já idoso conta de seu encontro com Nazareth
domingo, 17 de agosto de 2008
Fazendo escola
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A guitarra jazz norte-americana já tem sua escola. Transcrições de solos, métodos de improvisação, escolas tradicionais formando grandes quantidades de guitarristas de primeira.
E o Brasil? Temos uma tradição violonística das mais respeitáveis do mundo. E guitarristas sem dúvida entre os melhores. Mas ainda somos vítimas de um nacionalismo rançoso, que acha que a música brasileira pode ser tocada no cavaquinho, mas não na guitarra elétrica.
E não temos métodos, escolas, partituras nem transcrições.
Mas nem tudo está perdido. A música brasileira já é assunto de muitas pesquisas acadêmicas. Uma delas é a que está fazendo o Oliver Pellet para seu TCC no curso de Bacharelado em Música Popular da FAP (Faculdade de Artes do Paraná).
Ele está transcrevendo e estudando solos de guitarra de Hélio Delmiro, um dos grandes nomes da Música Instrumental Brasileira.
Um deles está neste vídeo:
Mais sobre o Oliver está aqui.
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A guitarra jazz norte-americana já tem sua escola. Transcrições de solos, métodos de improvisação, escolas tradicionais formando grandes quantidades de guitarristas de primeira.
E o Brasil? Temos uma tradição violonística das mais respeitáveis do mundo. E guitarristas sem dúvida entre os melhores. Mas ainda somos vítimas de um nacionalismo rançoso, que acha que a música brasileira pode ser tocada no cavaquinho, mas não na guitarra elétrica.
E não temos métodos, escolas, partituras nem transcrições.
Mas nem tudo está perdido. A música brasileira já é assunto de muitas pesquisas acadêmicas. Uma delas é a que está fazendo o Oliver Pellet para seu TCC no curso de Bacharelado em Música Popular da FAP (Faculdade de Artes do Paraná).
Ele está transcrevendo e estudando solos de guitarra de Hélio Delmiro, um dos grandes nomes da Música Instrumental Brasileira.
Um deles está neste vídeo:
Mais sobre o Oliver está aqui.
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Prateleiras:
guitarristas,
música instrumental brasileira,
músicos de Curitiba
Paidéia
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Este blogueiro iniciou uma parceria com a Escola de Música Paidéia.
O nome da escola é uma alusão ao sistema educacional da Grécia Clássica, e se aplica na filosofia da escol de formar alunos que são mais do que meros tocadores de instrumento. Trata-se de usar a música como elemento de formação humana, tendo o aluno como sujeito que aprende e não como objeto de um sistema "bancário", para usar um termo de Paulo Freire, numa referência às formas de ensino que tentam "depositar" conhecimentos na cabeça do aluno.
Como é que sei disso tudo?
Fui professor da escola entre 1997 e 2005. Lá dei aulas de violão, teoria musical e harmonia. Coordenei as atividades de violão da escola, e formei grupos musicais com os alunos. Minha chegada lá se deu após uma saída turbulenta do Conservatório de MPB de Curitiba, no qual fui professor de 1995 a 1997. E minha saída foi devido a uma nova etapa da vida profissional, quando terminei o mestrado e decidi me dedicar à carreira de professor universitário.
Hoje minha filha participa do Papo de anjo, coral infantil e grupo de musicalização, trabalho belíssimo feito pela professora e regente Cristiane Alexandre.
Agora estou escrevendo textos para a página da escola, exercendo uma atividade na qual me viciei depois abri meus blogs.
Coloquei o link da escola aí do lado, com uma logo. E de vez em quando vou dar aqui a dica de algum texto meu por lá.
Os dois primeiros foram:
Concerto de violão. Carlos Siwek & convidados.
Um professor se despede.
O primeiro é uma chamada para um concerto que foi parte das atividades da escola, e o segundo é sobre a ida de Fabrício Mattos para Londres.
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Este blogueiro iniciou uma parceria com a Escola de Música Paidéia.
O nome da escola é uma alusão ao sistema educacional da Grécia Clássica, e se aplica na filosofia da escol de formar alunos que são mais do que meros tocadores de instrumento. Trata-se de usar a música como elemento de formação humana, tendo o aluno como sujeito que aprende e não como objeto de um sistema "bancário", para usar um termo de Paulo Freire, numa referência às formas de ensino que tentam "depositar" conhecimentos na cabeça do aluno.
Como é que sei disso tudo?
Fui professor da escola entre 1997 e 2005. Lá dei aulas de violão, teoria musical e harmonia. Coordenei as atividades de violão da escola, e formei grupos musicais com os alunos. Minha chegada lá se deu após uma saída turbulenta do Conservatório de MPB de Curitiba, no qual fui professor de 1995 a 1997. E minha saída foi devido a uma nova etapa da vida profissional, quando terminei o mestrado e decidi me dedicar à carreira de professor universitário.
Hoje minha filha participa do Papo de anjo, coral infantil e grupo de musicalização, trabalho belíssimo feito pela professora e regente Cristiane Alexandre.
Agora estou escrevendo textos para a página da escola, exercendo uma atividade na qual me viciei depois abri meus blogs.
Coloquei o link da escola aí do lado, com uma logo. E de vez em quando vou dar aqui a dica de algum texto meu por lá.
Os dois primeiros foram:
Concerto de violão. Carlos Siwek & convidados.
Um professor se despede.
O primeiro é uma chamada para um concerto que foi parte das atividades da escola, e o segundo é sobre a ida de Fabrício Mattos para Londres.
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Prateleiras:
educação musical,
escolas de música,
Minhas histórias,
notícias
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Mais um show interessante
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O time é de primeira. Músicos de altíssimo nível, não há dúvida.
O nome do grupo é uma alusão a um lundu de Xisto Bahia que foi um dos primeiros registros fonográficos feitos no Brasil, na voz do Bahiano.
A proposta de repertório me chama atenção. Se eu conseguir assistir, farei um comentário aqui depois. Senão fica a dica a quem quiser assistir.
Aliás, o folder não diz, mas o espetáculo é gratuito...

O time é de primeira. Músicos de altíssimo nível, não há dúvida.
O nome do grupo é uma alusão a um lundu de Xisto Bahia que foi um dos primeiros registros fonográficos feitos no Brasil, na voz do Bahiano.
A proposta de repertório me chama atenção. Se eu conseguir assistir, farei um comentário aqui depois. Senão fica a dica a quem quiser assistir.
Aliás, o folder não diz, mas o espetáculo é gratuito...

(clique na imagem para ampliar)
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Vá ao cinema comemorar os 50 anos da Bossa Nova
Uma boa sugestão de comemoração dos 50 anos da Bossa Nova é ir ao cinema assistir Os desafinados, que irá estrear dia 29 de agosto.
O filme tem direção de Walter Lima Jr., e trilha sonora de Wagner Tiso. Elenco de primeira (Rodrigo Santoro, Selton Mello, Cláudia Abreu) complementado por músicos/atores (Jair Oliveira, Ãngelo Paes Leme, André Moraes).
Pelo que já se pode ver do filme - trailler e making of, vai ter música de primeira. E belas tomadas no Rio de Janeiro e em Nova York. Os personagens são fictícios, mas parece que suas histórias se entrelaçam com muito da realidade da vida musical na virada dos anos 1950/60.
A mim chama a atenção o fato de que os protagonistas do filme tocam seus instrumentos de verdade nas cenas, não apenas dublam. Jair, Ângelo e André são músicos de verdade, e Rodrigo Santoro toca piano pro gasto, o suficiente para não fazer feio nas cenas que exigem música tocada na hora. Pelo menos foi a impressão que tive assistindo ao making of. Para vê-lo, vá à página oficial do filme e clique em "multimídia". O Trailer também está lá.
Eu coloquei isso primeiro aqui no Página de cultura, após uma indicação do Pedro Doria, que por sua vez descobriu no Isso é Bossa Nova, onde complementei muitas informações que pus aqui...
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O filme tem direção de Walter Lima Jr., e trilha sonora de Wagner Tiso. Elenco de primeira (Rodrigo Santoro, Selton Mello, Cláudia Abreu) complementado por músicos/atores (Jair Oliveira, Ãngelo Paes Leme, André Moraes).
Pelo que já se pode ver do filme - trailler e making of, vai ter música de primeira. E belas tomadas no Rio de Janeiro e em Nova York. Os personagens são fictícios, mas parece que suas histórias se entrelaçam com muito da realidade da vida musical na virada dos anos 1950/60.
A mim chama a atenção o fato de que os protagonistas do filme tocam seus instrumentos de verdade nas cenas, não apenas dublam. Jair, Ângelo e André são músicos de verdade, e Rodrigo Santoro toca piano pro gasto, o suficiente para não fazer feio nas cenas que exigem música tocada na hora. Pelo menos foi a impressão que tive assistindo ao making of. Para vê-lo, vá à página oficial do filme e clique em "multimídia". O Trailer também está lá.
Eu coloquei isso primeiro aqui no Página de cultura, após uma indicação do Pedro Doria, que por sua vez descobriu no Isso é Bossa Nova, onde complementei muitas informações que pus aqui...
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Prateleiras:
Bossa Nova,
MPB,
música no cinema
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Linha de Passe
João Bosco e Hamilton de Holanda quebrando tudo na música que tem o título deste post:
Prateleiras:
MPB,
música e futebol,
vídeos
terça-feira, 22 de julho de 2008
Disponível Online
O Oxford Music online é um portal de informações sobre música, que acaba de ser disponibilizado por convênio no Portal CAPES.
Isso soma-se a outras boas notícias no meio acadêmico.
Isso soma-se a outras boas notícias no meio acadêmico.
Prateleiras:
música na internet,
notícias,
pesquisa acadêmica
terça-feira, 1 de julho de 2008
Melodia-de-timbres
Uma técnica de composição desenvolvida e usada na tradição germânica tardia, que ajudou a complexificar ainda mais as relações tonais através da não-linearidade e não discursividade melódica.
Ou seja, vejamos como Schoenberg fez isso numa das peças do Pierrot Lunaire:
Imagine uma seqüência harmônica singela, sem relações tonais muito óbvias, mas também nada que seja de outro planeta. Eu diria talvez que soa uma harmonia quase debussyana. Tentando forçar alguma lógica tonal, poderia-se dizer que é uma dominante de Dó, com uma bordadura diatônica, terminando em um acorde alterado (5ª aumentada). Só que a presumida tônica não aparece. Até aí está tudo tranqüilo, nada que já não viesse sendo feito desde 1850:

Só que Schoenberg não está escrevendo para piano. O trecho acima aparece instrumentado para flauta, clarinete e violino, como introdução instrumental para a entrada da recitante. Imaginaríamos então uma distribuição das vozes assim:

Só que Schoenberg, além de fugir às obviedades tonais, decide também fugir da obviedade na condução das vozes, criando um efeito que faz com que a melodia (que nossos ouvidos costumam identificar facilmente na parte mais aguda) seja distribuída uma nota para cada instrumento. O resultado é que a melodia ouvida entre as notas mais agudas não esteja num deslizamento dentro do timbre do mesmo instrumento. Pelo contrário, ela é construída ponto a ponto, em notas que caminham de um timbre a outro.

Nenhum instrumento tem linearidade melódica em seu próprio trecho. O que ouvimos uma melodia que transita por todos os instrumentos, uma nota para cada um.

Para ouvir o trecho:
P.S. Não está funcionando o áudio, vou ter que corrigir isso depois...
Ou seja, vejamos como Schoenberg fez isso numa das peças do Pierrot Lunaire:
Imagine uma seqüência harmônica singela, sem relações tonais muito óbvias, mas também nada que seja de outro planeta. Eu diria talvez que soa uma harmonia quase debussyana. Tentando forçar alguma lógica tonal, poderia-se dizer que é uma dominante de Dó, com uma bordadura diatônica, terminando em um acorde alterado (5ª aumentada). Só que a presumida tônica não aparece. Até aí está tudo tranqüilo, nada que já não viesse sendo feito desde 1850:

Só que Schoenberg não está escrevendo para piano. O trecho acima aparece instrumentado para flauta, clarinete e violino, como introdução instrumental para a entrada da recitante. Imaginaríamos então uma distribuição das vozes assim:

Só que Schoenberg, além de fugir às obviedades tonais, decide também fugir da obviedade na condução das vozes, criando um efeito que faz com que a melodia (que nossos ouvidos costumam identificar facilmente na parte mais aguda) seja distribuída uma nota para cada instrumento. O resultado é que a melodia ouvida entre as notas mais agudas não esteja num deslizamento dentro do timbre do mesmo instrumento. Pelo contrário, ela é construída ponto a ponto, em notas que caminham de um timbre a outro.

Nenhum instrumento tem linearidade melódica em seu próprio trecho. O que ouvimos uma melodia que transita por todos os instrumentos, uma nota para cada um.

Para ouvir o trecho:
P.S. Não está funcionando o áudio, vou ter que corrigir isso depois...
Prateleiras:
história da música,
Musicologia,
Schoenberg,
vanguardas musicais
sábado, 28 de junho de 2008
Um discurso
Discurso proferido pelo Senador oposicionista Rui Barbosa, em 7/11/1914, a propósito de uma recepção diplomática no Palácio do Catete, durante a qual a primeira-dama Nair de Teffé tocou ao violão o Corta-jaca de Chiquinha Gonzaga:
Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o "Corta-jaca" à altura de uma instituição social. Mas o "Corta-jaca" de que eu ouvira falar há muito tempo, o que vem a ser ele, Sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, irmã gêmea do batuque , do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o "Corta-jaca" é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!
Citado a partir de SANDRONI, Carlos. Feitiço decente. Transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1933). Rio de Janeiro: Zahar/UFRJ, 2001. p. 89.
Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o "Corta-jaca" à altura de uma instituição social. Mas o "Corta-jaca" de que eu ouvira falar há muito tempo, o que vem a ser ele, Sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, irmã gêmea do batuque , do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o "Corta-jaca" é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!
Citado a partir de SANDRONI, Carlos. Feitiço decente. Transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1933). Rio de Janeiro: Zahar/UFRJ, 2001. p. 89.
Prateleiras:
história da música popular brasileira,
música e política,
samba
terça-feira, 24 de junho de 2008
Um estrondoso sucesso
Uma lista das re-gravações de Aquarela do Brasil de Ary Barroso, feita pela pesquisadora Daniella Thompson, encontrou mais de 380 versões da música!
Dica do Fábio Poletto.
Dica do Fábio Poletto.
Prateleiras:
história da música popular brasileira,
samba
Música na corte de D. João (livro)
Novidade editorial:
CARDOSO, André. A música na corte de D. João VI. 1808-1821. São Paulo: Martins, 2008.
Ainda não comprei nem li o livro, mas o farei em breve. Folheei um exemplar na livraria, e li alguns trechos. O suficiente para saber que se trata da melhor obra publicada sobre o assunto. É um tema a respeito do qual o material existente está nas estantes das bibliotecas universitárias, mas não no das livrarias. Isolamento rompido pelo autor, que tem uma tese de doutorado sobre a Capela Real e Imperial do Rio de Janeiro, defendida no departamento de música da UNIRIO, onde hoje é professor.
O lançamento faz parte da saudável corrida para colocar no mercado novidades sobre a corte que chegou ao Brasil há 200 anos. Também sai muita porcaria nesse afã, como é o caso do livro do mesmo tema escrito por Vasco Mariz - a compra desse é puro desperdício de dinheiro...
Não consigo achar o link para o livro na página da editora, então vai aqui o da Livraria Cultura.
Outras postagens sobre o mesmo assunto:
Música na corte portuguesa no Rio de Janeiro
A Capela Real portuguesa
A música na corte de D. João VI
200 anos de Brasil
CARDOSO, André. A música na corte de D. João VI. 1808-1821. São Paulo: Martins, 2008.
Ainda não comprei nem li o livro, mas o farei em breve. Folheei um exemplar na livraria, e li alguns trechos. O suficiente para saber que se trata da melhor obra publicada sobre o assunto. É um tema a respeito do qual o material existente está nas estantes das bibliotecas universitárias, mas não no das livrarias. Isolamento rompido pelo autor, que tem uma tese de doutorado sobre a Capela Real e Imperial do Rio de Janeiro, defendida no departamento de música da UNIRIO, onde hoje é professor.
O lançamento faz parte da saudável corrida para colocar no mercado novidades sobre a corte que chegou ao Brasil há 200 anos. Também sai muita porcaria nesse afã, como é o caso do livro do mesmo tema escrito por Vasco Mariz - a compra desse é puro desperdício de dinheiro...
Não consigo achar o link para o livro na página da editora, então vai aqui o da Livraria Cultura.
Outras postagens sobre o mesmo assunto:
Música na corte portuguesa no Rio de Janeiro
A Capela Real portuguesa
A música na corte de D. João VI
200 anos de Brasil
Prateleiras:
história da música brasileira,
música no Brasil Monárquico
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Companhia de Ópera Nacional
Em 2007 completaram-se 150 anos do início da Companhia de Ópera Nacional, do Rio de Janeiro. A Data foi lembrada com este importante texto, de um blog infelizmente inativo.
Agradeço a dica ao Daniel Nicolini.
Outros textos sobre este tema aqui no blog - com gravação:
Carlos Gomes compositor sinfônico - I
P.S. O blogueiro não desapareceu, só mudou de casa.
Agradeço a dica ao Daniel Nicolini.
Outros textos sobre este tema aqui no blog - com gravação:
Carlos Gomes compositor sinfônico - I
P.S. O blogueiro não desapareceu, só mudou de casa.
Prateleiras:
história da música brasileira,
música no Brasil Monárquico,
ópera
O surgimento da canção
TATIT, Luiz. O século da canção. Cotia: Ateliê Editorial, 2004.
Este livro é, na verdade, uma coleção de ensaios deste autor que é um dos grandes intérpretes da cultura brasileira e estudioso da canção pelas ferramentas da lingüística e da semiótica. Julgo que o método analítico desenvolvido por Tatit seja uma grande descoberta, de grande utilidade para estudiosos do mundo inteiro. Primeiro por conseguir entender texto e entoação melódica como elementos complementares e interligados na canção. Segundo por anotar as inflexões melódicas num sistema que permite ser lido por quem não entende uma partitura. Terceiro porque este sistema de notação também fica livre da escravidão do compasso ocidental, nunca levado muito a sério pelos cancionistas. E quarto por relativizar as alturas, tirando-as do contexto das tonalidades específicas e transformando-as num deslizamento melódico que serve para qualquer tonalidade ou altura relativa.
A tese de Tatit, que é o elemento unificador deste livro, é a de que a canção popular foi o grande produto cultural brasileiro do século XX. Para melhor entender este produto, escreveu estes textos, que são resultados de suas pesquisas mais recentes.
Em um dos capítulos, lança a idéia de alguns cantores conseguiram entender melhor a alma das ruas, gravando em disco músicas que aproveitavam a fala cotidiana, e que por isso podiam atingir melhor uma audiência mais ampla.
Algumas das músicas que o autor tinha em mente ao escrever o texto:
CASEMIRO Rocha. Rato, rato (choro). Odeon Record 108069.
CASEMIRO Rocha e Claudino Costa. Rato, rato (cançoneta). Claudino Costa. Odeon 120062.
XISTO Bahia. Isto é bom (lundu). Eduardo das Neves. Odeon Record 108076.
EDUARDO das Neves. A conquista do ar (marcha). Baiano. Zon-O-Phone X-621.
ERNESTO de Souza. O angu do barão. Baiano. Zon-O-Phone X-670.
ERNESTO de Souza. Regente de orquestra (cançoneta). Baiano. Zon-O-Phone X-649.
COSTA Silva. A pombinha de Lulu (cançoneta). Baiano. Odeon Record 120148.
Este livro é, na verdade, uma coleção de ensaios deste autor que é um dos grandes intérpretes da cultura brasileira e estudioso da canção pelas ferramentas da lingüística e da semiótica. Julgo que o método analítico desenvolvido por Tatit seja uma grande descoberta, de grande utilidade para estudiosos do mundo inteiro. Primeiro por conseguir entender texto e entoação melódica como elementos complementares e interligados na canção. Segundo por anotar as inflexões melódicas num sistema que permite ser lido por quem não entende uma partitura. Terceiro porque este sistema de notação também fica livre da escravidão do compasso ocidental, nunca levado muito a sério pelos cancionistas. E quarto por relativizar as alturas, tirando-as do contexto das tonalidades específicas e transformando-as num deslizamento melódico que serve para qualquer tonalidade ou altura relativa.
A tese de Tatit, que é o elemento unificador deste livro, é a de que a canção popular foi o grande produto cultural brasileiro do século XX. Para melhor entender este produto, escreveu estes textos, que são resultados de suas pesquisas mais recentes.
Em um dos capítulos, lança a idéia de alguns cantores conseguiram entender melhor a alma das ruas, gravando em disco músicas que aproveitavam a fala cotidiana, e que por isso podiam atingir melhor uma audiência mais ampla.
Algumas das músicas que o autor tinha em mente ao escrever o texto:
CASEMIRO Rocha. Rato, rato (choro). Odeon Record 108069.
CASEMIRO Rocha e Claudino Costa. Rato, rato (cançoneta). Claudino Costa. Odeon 120062.
XISTO Bahia. Isto é bom (lundu). Eduardo das Neves. Odeon Record 108076.
EDUARDO das Neves. A conquista do ar (marcha). Baiano. Zon-O-Phone X-621.
ERNESTO de Souza. O angu do barão. Baiano. Zon-O-Phone X-670.
ERNESTO de Souza. Regente de orquestra (cançoneta). Baiano. Zon-O-Phone X-649.
COSTA Silva. A pombinha de Lulu (cançoneta). Baiano. Odeon Record 120148.
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Prateleiras:
a canção popular brasileira,
gravações,
história da música brasileira,
resenhas
terça-feira, 17 de junho de 2008
Maxixe
Acho que o melhor livro para se estudar sobre o maxixe é o do Carlos Sandroni. Na verdade é uma história do samba e de suas transformações entre as décadas de 1920/1930. Só que o Sandroni vai até o âmago histórico da questão. Analisa a rítmica agregativa e polifônica das culturas da África sub-saariana e constata sua influência na inoculação de contra-metricidades afro-brasileiras nas modinhas portuguesas. Depois parte para a mescla dessa afro-brasilidade com a polca chegada em meados do século XIX - explicando com isso o surgimento da polca brasileira - depois maxixe.
A rítmica do maxixe seria a base do samba das primeiras décadas do século XX, que Sandroni chama de "samba baiano-carioca". Transformações rítmicas surgidas na década de 1930 levariam ao samba como o conhecemos hoje, que Sadroni chama de "samba do Estácio".
Está tudo ali:
SANDRONI, Carlos. Feitiço decente. As transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1933). Rio de Janeiro: Zahar/UFRJ, 2001.
E foram justamente os maxixes (também chamados polcas ou tangos, como esclarece Sandroni) algumas das primeiras obras musicais registradas em fonograma no início do século XX.
A seguir algumas gravações, com as referências:
ANACLETO de Medeiros. Cabeça de porco (maxixe). Banda do Corpo de Bombeiros. Odeon Record 40621.
ERNESTO Nazareth. Brejeiro (tango). Banda do Corpo de Bombeiros. Odeon Record 40572.
JOAQUIM Antonio da Silva Callado Jr. Cruzes minha prima! (polca). Agenor Bens e Arthur Camillo. Odeon Record 120672
CHIQUINHA Gonzaga. Atraente (polca). Grupo Chiquinha Gonzaga. Columbia Record B-127.
ERNESTO Nazareth. Escovado (tango brasileiro). Ernesto Nazareth. Odeon 10718-B

Leia também sobre maxixe: Machado Maxixe
A rítmica do maxixe seria a base do samba das primeiras décadas do século XX, que Sandroni chama de "samba baiano-carioca". Transformações rítmicas surgidas na década de 1930 levariam ao samba como o conhecemos hoje, que Sadroni chama de "samba do Estácio".
Está tudo ali:
SANDRONI, Carlos. Feitiço decente. As transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1933). Rio de Janeiro: Zahar/UFRJ, 2001.
E foram justamente os maxixes (também chamados polcas ou tangos, como esclarece Sandroni) algumas das primeiras obras musicais registradas em fonograma no início do século XX.
A seguir algumas gravações, com as referências:
ANACLETO de Medeiros. Cabeça de porco (maxixe). Banda do Corpo de Bombeiros. Odeon Record 40621.
ERNESTO Nazareth. Brejeiro (tango). Banda do Corpo de Bombeiros. Odeon Record 40572.
JOAQUIM Antonio da Silva Callado Jr. Cruzes minha prima! (polca). Agenor Bens e Arthur Camillo. Odeon Record 120672
CHIQUINHA Gonzaga. Atraente (polca). Grupo Chiquinha Gonzaga. Columbia Record B-127.
ERNESTO Nazareth. Escovado (tango brasileiro). Ernesto Nazareth. Odeon 10718-B
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Leia também sobre maxixe: Machado Maxixe
Prateleiras:
gravações,
história da música brasileira,
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sexta-feira, 13 de junho de 2008
Blues: do Mississipi a Chicago
O blues originou-se na região do delta do rio Mississipi, no sul dos EUA, com os negros que trabalhavam nas plantações dos latifúndios. Em meados do século XX começou uma migração maciça para as regiões industriais, especialmente Chicago.
O blues do delta era rural - violão e gaitinha. Eletrificou-se e acompanhou-se de bateria, contrabaixo, piano, coro de saxofones, orgão e etc. Virou show bizz. Mas não perdeu a característica original (os puristas que não me leiam!).
Um interessante vídeo sobre este bantustão no Deep South, com direito ao do originalíssimo Robert Johnson:
Do delta, um descendente - John Lee Hooker:
De Chicago, o rei - B. B. King:
O blues do delta era rural - violão e gaitinha. Eletrificou-se e acompanhou-se de bateria, contrabaixo, piano, coro de saxofones, orgão e etc. Virou show bizz. Mas não perdeu a característica original (os puristas que não me leiam!).
Um interessante vídeo sobre este bantustão no Deep South, com direito ao do originalíssimo Robert Johnson:
Do delta, um descendente - John Lee Hooker:
De Chicago, o rei - B. B. King:
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Educação Musical na escola
No Página de cultura, uma notícia auspiciosa.
Prateleiras:
educação musical
sábado, 7 de junho de 2008
Uma obra-prima lirica
Após uma série de textos em que destaquei a habilidade de Carlos Gomes como compositor de danças de salão e de música sinfônica (aqui, aqui e aqui), não poderia deixar de mostrar um pouco do que foi a principal habilidade e o principal motivo de seu sucesso internacional: a incrível habilidade de criar melodias dramáticas, da qual a ária cantada pela personagem que dá nome à ópera Fosca é provavelmente o maior exemplo.
A história desta ópera se passa entre piratas da Ístria, no século X. Gajolo é o chefe, Fosca sua irmã. Cambro o sub-chefe que quer trair Gajolo e tomar seu lugar. Paolo é príncipe de Veneza que foi seqüestrado e é devolvido mediante resgate. Delia é sua noiva veneziana. Fosca está apaixonada por Paolo, foi ela que intercedeu para que não fosse morto por Gajolo. Fosca cuidou de seus ferimentos no esconderijo dos piratas. Agora não quer que Paolo seja devolvido, mas Gajolo insiste que um pirata tem que cumprir sua palavra.
Os piratas fazem um novo plano, para seqüestrar dez casais durante cerimônia de casamento na igreja. Coincidentemente, Paolo e Delia estão entre os casais. Cambro descobre isso pois andou pela cidade disfarçado de mercador. Conta-o a Fosca, que liderará o ataque à igreja. Quando ela sabe que Paolo se casará, canta a ária Quale orribile pecato:
A lei d’apresso egli era!
Eterno affetto ei le giurava!
Ed ai suoi dolci accenti con un tenero sguardo
con u sorriso risponde a costei
ch'io tanto abboro!
Per lor l'ebbrezza d'un piacer divino
per me il dolor d'un disperato amore!
Ciel! Per essi la gioja... l'ebbrezza...
Ah! E dio le inferno ho in core!
(cobre o rosto com as mãos e chora)
Quale orribile peccato espiar quaggiú
degg'io? Dunque un cor tu m'hai donato
per straziarlo, per straziarlo, o avverso.
Dio! O Dio! Un lembo arcano a me svelasti,
ah! Poi, crudel! Ah! Poi,
crudel miripiombasti,
ripiombasti nell'abisso del dolor!
Ah! Tu del cielo un lembo arcano
a miei sguardi un di svelasti,
poi, crudel, mi ripiombasti
nell'abisso del dolore, ohimé!
mi ripiombasti, mi ripiombasti
nel dolor, nell'abisso del dolor
Ohié! Ah! Crudel! Ah! Crudel!
(cai de joelhos)
tradução:
Ele junto a ela
jurava-lhe terno afeto,
e com um olhar terno
responde ocm um sorriso
à sua doce voz, o que tanto me aborrece!
Para eles, a sensação de um prazer divino;
para mim,
a dor de um amor desesperado!
Ah! E eu com o inferno no coração!
Que pecado horrível eu espio?
Portanto o coração que me deste
era para ser despedaçado, despedaçado.
Oh! Deus! Oh! Deus! Um segredo extremo a mim
revelaste, ah! Depois, cruel! Ah! Depois,
cruelmente me desmontaste,
me jogaste no abismo da dor!
Ah! Um dia revelaste aos meus olhos
um segredo extremo dos céus
Ah! Dos céus um segredo extremo
me foi revelado, depois fui cruelmente jogada
no abismo da dor, ai de mim!
Depois me desmontaste, me jogaste na dor, no abismo
da dor, ai de mim! Ah! Cruel! Ah! Cruel!
A história desta ópera se passa entre piratas da Ístria, no século X. Gajolo é o chefe, Fosca sua irmã. Cambro o sub-chefe que quer trair Gajolo e tomar seu lugar. Paolo é príncipe de Veneza que foi seqüestrado e é devolvido mediante resgate. Delia é sua noiva veneziana. Fosca está apaixonada por Paolo, foi ela que intercedeu para que não fosse morto por Gajolo. Fosca cuidou de seus ferimentos no esconderijo dos piratas. Agora não quer que Paolo seja devolvido, mas Gajolo insiste que um pirata tem que cumprir sua palavra.
Os piratas fazem um novo plano, para seqüestrar dez casais durante cerimônia de casamento na igreja. Coincidentemente, Paolo e Delia estão entre os casais. Cambro descobre isso pois andou pela cidade disfarçado de mercador. Conta-o a Fosca, que liderará o ataque à igreja. Quando ela sabe que Paolo se casará, canta a ária Quale orribile pecato:
A lei d’apresso egli era!
Eterno affetto ei le giurava!
Ed ai suoi dolci accenti con un tenero sguardo
con u sorriso risponde a costei
ch'io tanto abboro!
Per lor l'ebbrezza d'un piacer divino
per me il dolor d'un disperato amore!
Ciel! Per essi la gioja... l'ebbrezza...
Ah! E dio le inferno ho in core!
(cobre o rosto com as mãos e chora)
Quale orribile peccato espiar quaggiú
degg'io? Dunque un cor tu m'hai donato
per straziarlo, per straziarlo, o avverso.
Dio! O Dio! Un lembo arcano a me svelasti,
ah! Poi, crudel! Ah! Poi,
crudel miripiombasti,
ripiombasti nell'abisso del dolor!
Ah! Tu del cielo un lembo arcano
a miei sguardi un di svelasti,
poi, crudel, mi ripiombasti
nell'abisso del dolore, ohimé!
mi ripiombasti, mi ripiombasti
nel dolor, nell'abisso del dolor
Ohié! Ah! Crudel! Ah! Crudel!
(cai de joelhos)
tradução:
Ele junto a ela
jurava-lhe terno afeto,
e com um olhar terno
responde ocm um sorriso
à sua doce voz, o que tanto me aborrece!
Para eles, a sensação de um prazer divino;
para mim,
a dor de um amor desesperado!
Ah! E eu com o inferno no coração!
Que pecado horrível eu espio?
Portanto o coração que me deste
era para ser despedaçado, despedaçado.
Oh! Deus! Oh! Deus! Um segredo extremo a mim
revelaste, ah! Depois, cruel! Ah! Depois,
cruelmente me desmontaste,
me jogaste no abismo da dor!
Ah! Um dia revelaste aos meus olhos
um segredo extremo dos céus
Ah! Dos céus um segredo extremo
me foi revelado, depois fui cruelmente jogada
no abismo da dor, ai de mim!
Depois me desmontaste, me jogaste na dor, no abismo
da dor, ai de mim! Ah! Cruel! Ah! Cruel!
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Prateleiras:
Carlos Gomes,
história da música brasileira,
música no Brasil Monárquico,
ópera
Carlos Gomes compositor sinfônico - III
Fosca, estreada em 1873, é considerada a ópera musicalmente mais desenvolvida de Carlos Gomes. Não foi muito bem recebida pelo público, o próprio compositor a considerava uma ópera para entendidos - assim como dizia que Il Guarany era para os brasileiros e Salvator Rosa (1874) para os italianos.
Esta abertura é também, provavelmente, a melhor obra orquestral de Carlos Gomes. Aqui numa interpretação de Fernando Malheiros com a Ópera Nacional de Sófia.
Esta abertura é também, provavelmente, a melhor obra orquestral de Carlos Gomes. Aqui numa interpretação de Fernando Malheiros com a Ópera Nacional de Sófia.
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